máscaras

abril 19, 2016 | Marcadores:

Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto para a frente, com a mesma contração no rosto.

O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.

— David Foster Wallace. Uma história radicalmente condensada da vida pós-industrial, em Breves entrevistas com homens hediondos. Companhia das Letras. p. 9.


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a pessoa deprimida

abril 10, 2016 | Marcadores:

A terapeuta — que era substancialmente mais velha que a pessoa deprimida, porém mais jovem que a mãe da pessoa deprimida e que, a não ser pelo estado das unhas, não parecia com essa mãe sob nenhum aspecto físico ou estilístico — às vezes incomodava a pessoa deprimida com seu hábito de fazer uma jaula digiforme em seu colo, mudando as formas da jaula e observando as diversas jaulas geométricas durante o trabalho conjunto delas. Ao longo do tempo, porém, à medida que o relacionamento terapêutico se aprofundava em termos de intimidade, abertura e confiança, a visão das jaulas digiformes irritava cada vez menos a pessoa deprimida, acabando por se tornar pouco mais que uma distração. Muito mais problemático em termos das questões de confiança e auto-estima da pessoa deprimida era o hábito da terapeuta de de tempos em tempos olhar muito rapidamente o grande relógio em forma de sol na parede atrás da poltrona em que a pessoa deprimida costumava sentar durante o tempo que passavam juntas, olhando (i.e., a terapeuta olhando) muito rapidamente e quase furtivamente o relógio, de tal forma que o que veio a incomodar a pessoa deprimida mais e mais ao longo do tempo foi não o fato de a terapeuta olhar o relógio, mas de a terapeuta aparentemente tentar esconder ou disfarçar o fato de que estava olhando o relógio. A pessoa deprimida — que era torturantemente sensível, ela própria admitia, à possibilidade de de que qualquer pessoa que procurasse e com quem se abrisse ficasse secretamente entediada, repugnada ou desesperada para se livrar dela o mais rápido possível e ficava comensuravelmente hipervigilante a qualquer ligeiro movimento ou gesto que pudesse insinuar que um ouvinte estava consciente do tempo ou ansioso para o tempo passar e nunca deixava de notar quando a terapeuta muito rapidamente levantasse os olhos para o relógio de parede ou os baixasse para o fino e elegante relógio de pulso cujo mostrador ficava escondido dos olhos da pessoa deprimida debaixo do fino pulso da terapeuta — a pessoa deprimida havia por fim, no final do primeiro ano do relacionamento terapêutico, caído em prantos e revelado que se sentia totalmente depreciada e invalidade sempre que a terapeuta parecia tentar esconder o fato de que queria saber a hora exata. Grande parte do trabalho da pessoa deprimida com a terapeuta no primeiro ano de sua jornada (i.e., da pessoa deprimida) em direção à cura e à inteireza intrapessoal dizia respeito a seus sentimentos de ser especialmente e repulsivamente tediosa, ou enrolada, ou pateticamente autocentrada e de não ser capaz de confiar que houvesse genuinos interesse, compaixão e cuidados da parte de uma pessoa que estava procurando para apoio; e, de fato, a primeira conquista significativa do relacionamento terapêutico, contou a pessoa deprimida a membros de seu Sistema de Apoio no torturante período seguinte à morte da terapeuta, ocorrera quando a pessoa deprimida, ao final do segundo ano de relacionamento terapêutico, entrara suficientemente em contato com seus próprios valor recursos interiores ao ponto de conseguir revelar com firmeza à terapeuta que ela (i.e., a respeitosa, mas firme pessoa deprimida) preferiria que a terapeuta simplesmente olhasse abertamente o seu relógio helioforme ou abertamente virasse o pulso para olhar o lado de baixo do relógio de pulso em vez de aparentemente acreditar — ou pelo menos se empenhar num comportamento que, do ponto de vista confessamente hipersensível da pessoa deprimida, fazia parecer que a terapeuta acreditava — que a pessoa deprimida podia ser enganada pelo fato de ela desonestamente disfarçar a olhada para o relógio em algum gesto que tentava parecer um olhar sem nenhum significado para a parede ou uma distraída manipulação da forma de jaula digiforme em seu colo.

— David Foster Wallace. A pessoa deprimida, em Breves entrevistas com homens hediondos. Companhia das Letras. p. 68-69, trecho das notas de rodapé.


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dissolução

fevereiro 07, 2016 | Marcadores: ,

Ao fitar por muito tempo um ponto fixo na parede, às vezes acabo não sabendo mais quem sou nem onde estou. Então, sinto claramente falta da minha identidade, como se eu tivesse me tornado, de repente, um estrangeiro perfeito. Esse personagem abstrato e minha pessoa real disputam em pé de igualdade minha convicção.

No instante seguinte minha identidade se recompõe, como naqueles cartões estereoscópicos em que as duas imagens por engano às vezes não coincidem e só quando o operador as ajusta, sobrepondo-as, surge a ilusão de relevo. Nessas ocasiões, o quarto se me apresenta com um frescor inédito. Ele retoma sua consistência anterior e seus objetos pousam nos devidos lugares, como um torrão de terra esfarelado numa garrafa cheia d'água, que vai se assentando em camadas de elementos diferentes, bem definidas e de cores variadas. Os elementos do quarto se estratificam em seu próprio contorno e no colorido da antiga lembrança que tenho deles.

A sensação de distanciamento e de solidão nos momentos em que minha pessoa cotidiana se dissolve em inconsistência é diferente de quaisquer outra sensações. Quando dura muito, ela se transforma em medo, em pavor de não conseguir nunca mais me reencontrar. Ao longe, persiste uma silhueta insegura de mim mesmo rodada por um grande halo de luz, à maneira dos objetos visíveis através da névoa.

A terrível pergunta "quem realmente sou" pulsa no meu âmago como um corpo perfeitamente novo, que cresceu dentro de mim com pele e órgãos que me são completamente desconhecidos. Uma lucidez mais profunda e mais essencial que a do cérebro exige uma resposta. Tudo o que é capaz de se agitar no meu corpo se agita, se debate e se revolta com mais força e de modo mais elementar do que na vida cotidiana. Tudo implora uma solução.

Por vezes reconheço o quarto assim como ele é, como se eu fechasse e abrisse os olhos: a cada vez o quarto é mais claro — assim como uma paisagem vista pela luneta, cada vez mais organizada à medida que, ajustando as distâncias, percorremos todos os véus de imagens intermediárias. Finalmente reconheço-me a mim mesmo e reencontro o quarto. É uma sensação de leve embriaguez. O quarto se apresenta extraordinariamente condensado em sua matéria, e eu implacavelmente sou devolvido à superfície das coisas: quanto mais profunda a onda de imprecisão, mais alta é a sua crista; nunca, em nenhuma outra circunstância além de tais momentos, me parece mais evidente que cada objeto deve ocupar o lugar que ocupa e que eu devo ser quem sou.

Atormentar-me em insegurança não tem então nenhum motivo; é um simples arrependimento de não ter encontrado nada em sua profundidade. Apenas me surpreende que uma total falta de significado tenha podido estar tão ligada à minha matéria íntima. Agora que me reencontrei e tento expressar minha sensação, ela se apresenta diante de mim perfeitamente impessoal: um simples exagero da minha identidade, que brotou como um câncer a partir de sua própria substância. Um tentáculo de medusa que se estendeu além da medida e que ansiou exasperadamente em meio às ondas até enfim voltar para baixo da ventosa de gelatina. Em alguns momentos de desassossego percorri assim todas as certezas e incertezas da minha existência, até voltar definitiva e dolorosamente para minha solidão.

Agora, trata-se de uma solidão mais pura e mais patética. A sensação de distanciamento do mundo é mais clara e mais íntima: uma melancolia límpida e suave, como um sonho resgatado no meio da madrugada. [...] Só nesse desaparecimento súbito de identidade é que reencontro minhas quedas no espaço maldito de outrora, e só nos momentos de imediata lucidez que se seguem à volta à superfície é que o mundo me surge na atmosfera incomum de inutilidade e anacronismo que se formava ao meu redor quando meus transes alucinantes logravam derrubar-me.

— Max Blecher. Acontecimentos na irrealidade imediata. Cosac Naify. p. 7-10.

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