não espere o "momento certo": apenas faça

outubro 08, 2016 | , ,
é possível fazer qualquer coisa, então não diga "eu só vou fazer SE eu tiver essa condição". é bobagem, é mentira. isto é capricho: é fazer o melhor que você pode na condição que tem, não dizer "se todas as condições foram boas então eu posso ser uma boa pessoa". eu espero que todas as condições sejam favoráveis; nunca vão ser. e você nunca vai fazer nada. "com as condições que eu tenho, como é que eu faço o meu melhor?", isto é diferente.


comentários

máscaras

abril 19, 2016 |

Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto para a frente, com a mesma contração no rosto.

O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.

— David Foster Wallace. Uma história radicalmente condensada da vida pós-industrial, em Breves entrevistas com homens hediondos. Companhia das Letras. p. 9.


comentários

a pessoa deprimida

abril 10, 2016 |

A terapeuta — que era substancialmente mais velha que a pessoa deprimida, porém mais jovem que a mãe da pessoa deprimida e que, a não ser pelo estado das unhas, não parecia com essa mãe sob nenhum aspecto físico ou estilístico — às vezes incomodava a pessoa deprimida com seu hábito de fazer uma jaula digiforme em seu colo, mudando as formas da jaula e observando as diversas jaulas geométricas durante o trabalho conjunto delas. Ao longo do tempo, porém, à medida que o relacionamento terapêutico se aprofundava em termos de intimidade, abertura e confiança, a visão das jaulas digiformes irritava cada vez menos a pessoa deprimida, acabando por se tornar pouco mais que uma distração. Muito mais problemático em termos das questões de confiança e auto-estima da pessoa deprimida era o hábito da terapeuta de de tempos em tempos olhar muito rapidamente o grande relógio em forma de sol na parede atrás da poltrona em que a pessoa deprimida costumava sentar durante o tempo que passavam juntas, olhando (i.e., a terapeuta olhando) muito rapidamente e quase furtivamente o relógio, de tal forma que o que veio a incomodar a pessoa deprimida mais e mais ao longo do tempo foi não o fato de a terapeuta olhar o relógio, mas de a terapeuta aparentemente tentar esconder ou disfarçar o fato de que estava olhando o relógio. A pessoa deprimida — que era torturantemente sensível, ela própria admitia, à possibilidade de de que qualquer pessoa que procurasse e com quem se abrisse ficasse secretamente entediada, repugnada ou desesperada para se livrar dela o mais rápido possível e ficava comensuravelmente hipervigilante a qualquer ligeiro movimento ou gesto que pudesse insinuar que um ouvinte estava consciente do tempo ou ansioso para o tempo passar e nunca deixava de notar quando a terapeuta muito rapidamente levantasse os olhos para o relógio de parede ou os baixasse para o fino e elegante relógio de pulso cujo mostrador ficava escondido dos olhos da pessoa deprimida debaixo do fino pulso da terapeuta — a pessoa deprimida havia por fim, no final do primeiro ano do relacionamento terapêutico, caído em prantos e revelado que se sentia totalmente depreciada e invalidade sempre que a terapeuta parecia tentar esconder o fato de que queria saber a hora exata. Grande parte do trabalho da pessoa deprimida com a terapeuta no primeiro ano de sua jornada (i.e., da pessoa deprimida) em direção à cura e à inteireza intrapessoal dizia respeito a seus sentimentos de ser especialmente e repulsivamente tediosa, ou enrolada, ou pateticamente autocentrada e de não ser capaz de confiar que houvesse genuinos interesse, compaixão e cuidados da parte de uma pessoa que estava procurando para apoio; e, de fato, a primeira conquista significativa do relacionamento terapêutico, contou a pessoa deprimida a membros de seu Sistema de Apoio no torturante período seguinte à morte da terapeuta, ocorrera quando a pessoa deprimida, ao final do segundo ano de relacionamento terapêutico, entrara suficientemente em contato com seus próprios valor recursos interiores ao ponto de conseguir revelar com firmeza à terapeuta que ela (i.e., a respeitosa, mas firme pessoa deprimida) preferiria que a terapeuta simplesmente olhasse abertamente o seu relógio helioforme ou abertamente virasse o pulso para olhar o lado de baixo do relógio de pulso em vez de aparentemente acreditar — ou pelo menos se empenhar num comportamento que, do ponto de vista confessamente hipersensível da pessoa deprimida, fazia parecer que a terapeuta acreditava — que a pessoa deprimida podia ser enganada pelo fato de ela desonestamente disfarçar a olhada para o relógio em algum gesto que tentava parecer um olhar sem nenhum significado para a parede ou uma distraída manipulação da forma de jaula digiforme em seu colo.

— David Foster Wallace. A pessoa deprimida, em Breves entrevistas com homens hediondos. Companhia das Letras. p. 68-69, trecho das notas de rodapé.


comentários